O Olho do Viajante – Por Márcio Vassallo

Por Márcio Vassallo   
Aqui na estrada, me deu vontade de postar de novo uma crônica que escrevi para a Leituras Compartilhadas, uma das revistas mais deliciosas e importantes já publicadas no Brasil.

O OLHO DO VIAJANTE
Viajar é uma arte para quem tem olho.

Mas olho de viajante não pousa em cartão-postal, não fica na superfície.

Ele entra é na fundura das pessoas, dos lugares, das situações.
E se mexe feito um pensamento desembestado.

Aliás, desembestar ideia nas pessoas é coisa bem de viajante mesmo, que vê boniteza de tudo quanto é ângulo; nas paisagens escondidas, nos ruídos da mesmice, na lucidez do desatino.

O olho do viajante tem um assombro permanente.

Todo mar é sempre o primeiro para ele.

As coisas têm cheiro de susto e som de descoberta.

Cheiro de susto é um que pula na gente que nem silêncio esfregado na frase.

Som de descoberta é quando a gente pisa numa concha e fica com música no pé.

Então, mesmo quando a descoberta se cobre de novo e o susto passa, tem viajante que fica nas pessoas, tem pessoas que ficam no viajante, tem chegada que abre desejo, tem desejo que dá na partida, tem um monte de tudo alargado nas miudezas.

Mas, afinal, o que é miudeza para o viajante?

Ah, miudeza é o infinito apertado na lonjura. e infinito é uma miudeza esticada até não sei onde.

Viajante é quem empina o infinito dentro da gente.

Só que para empinar infinito nos outros, antes de tudo, o viajante tem que fazer isso dentro dele mesmo. Depois, aí sim ele pode botar as pessoas no ar. E botar as pessoas no ar é dar olho de viajante para elas.

Acho que um dos grandes desafios do professor é dar olho de viajante para os seus alunos.

Há alguns anos fui conhecer as Cataratas do Iguaçu. E tem uma cena que não saiu mais da minha cabeça. Uma professora tinha levado os seus alunos para estudar as cataratas. e ficou lá, o tempo todo, falando da quantidade de litros que caía por dia, do período de secas, de tudo o que podia ser encontrado nos livros ou pesquisado na internet.

Ela ficou lá enchendo as crianças de datas, nomes e números.

É claro que a intenção daquela moça era a melhor possível. Ela saiu da sala de aula, deu um passo importante para viajar com as crianças num monte de possibilidades. Mas ficar só falando de datas, nomes e números, num momento que poderia ser tão mágico, foi dar tudo para aquela turma, menos olho de viajante.

Ainda mais importante do que saber de onde vem e para onde vai toda aquela água é escutar o barulho que ela faz quando cai. Aí você pode fechar os olhos junto com o seu filho, junto com o seu aluno, e ficar escutando aquele barulho assustador de bonito.

Assim, de olhos fechados, vocês podem ver um bocado de coisas juntos. Vocês podem conversar sobre o que cada um imagina quando escuta aquela catarata despencar. Já imaginou? É assim que você vai botar encanto na criança. É assim que ela vai suspirar. E é assim que você vai suspirar junto com os seus alunos.

Se quiser, você pode esquecer o barulho e ficar na imagem. Você pode ler a imagem das cataratas, ou ler a imagem de uma praça, de um rosto, de um texto, de uma ilustração.

Ensinar a ler sons e imagens é dar olho de viajante para as pessoas.

Conheço uma professora que faz isso como ninguém. Ela usa a literatura para dar uma aula possuída de beleza.

Literatura infantil, para ela, é coisa séria, não é historinha, não é misturar dois quilos de diminutivos com um punhado de adjetivos e descobrir lições de moral no final, nem é pretexto para falar de gramática, para fazer prova ou para cobrar respostas certas, como se existissem respostas certas para a beleza.

Essa professora que eu conheço diz que a beleza é incerta.

É assim que ela dá febre de encantamento nos seus alunos.

Na realidade, ela sabe que os seus alunos não são seus, porque nenhuma cidade pertence ao viajante. e cada aluno é uma cidade diferente.

Ninguém conhece uma cidade só de ouvir, seja numa conversa entre amigos, ou na sala dos professores.

Para conhecer uma cidade, a gente tem que entrar nela com o olho desarmado, sem rótulos, sem pressa, sem expectativas exageradas. E tem que permitir que ela entre na gente, sem que perceba que está entrando.

Entrar numa cidade, entrar num livro, entrar numa pessoa, e permitir que tudo isso entre na gente, é bem coisa de viajante mesmo.

Mas viajar não é uma arte só para quem tem olho.

Afinal, olho a gente ganha na estrada. Não importa que essa estrada, hoje, seja a rua que você atravessa todos os dias, a página de um livro que salta na sua frente, ou o corredor da sua escola.

Tem gente que roda o mundo, mas não consegue sair do lugar.

Tem gente que não sai do lugar, mas consegue rodar o mundo.

A viagem depende muito mais da pessoa que da passagem.

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