Viver sem Medo – Eduardo Galeano

“Acho, que o exercício da solidariedade, quando se pratica de verdade, no dia-a-dia é também um exercício de humildade.

Que ensina você a se reconhecer nos outros e a reconhecer a grandeza escondida nas coisas pequenininhas e que implica denunciar a falsa grandeza nas coisas grandinhas em um mundo que confunde grandeza com grandinho.

Faz pouco tempo, em uma entrevista que me fizeram em Madrid, um jornalista me falou:

“-Lendo os seus livros sinto, que você tem um olho no microscópio e outro no telescópio.”

E achei uma boa definição das minhas intenções, do que eu gostaria de fazer escrevendo.

Ser capaz de olhar o que não se olha, mas que merece ser olhado.

As pequenas, as minúsculas coisas da gente anônima, da gente que os intelectuais costumam desprezar. Esse micro-mundo onde eu acredito que se alimenta de verdade a grandeza do Universo.

E ao mesmo tempo ser capaz de contemplar o Universo, através do buraco da fechadura, ou seja, a partir das pequenas coisas ser capaz de olhar as grandes.

Os grandes mistérios da Vida, o mistério da dor humana mas também o mistério da persistência humana, nesta mania, às vezes, inexplicável de lutar por um Mundo que seja a casa de todos, e não a casa de pouquinhos e o inferno da maioria.

E outras coisas mais…

A capacidade de beleza, a capacidade de formosura da gente mais simples, às vezes, da gente mais singular, que tem uma insólita capacidade de formosura, que às vezes se manifesta em uma canção, em um grafite, em uma conversa qualquer.

A que as crianças têm…

O que acontece é que depois, nós, adultos, ocupamos em transformá-las em nós mesmos e aí destruímos a vida delas. Mas temos que ver o que é uma criança não?

São todas pagãs…

Um dias desses fui caminhar pela manhã, e  cruzei com uma menina pequena, não devia ter mais que dois anos…

Ela vinha cumprimentando a grama, as plantinhas:

-Bom dia graminha!

Ou seja, nessa idade, somos todos pagãos, e nessa idade, Somos Todos Poetas…

Depois o Mundo se ocupa de apequenar nossa Alma.”

Viver sem Medo – Trecho da entrevista de Eduardo Galeano

 

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