Nossa Criança Interior – (Poesia por Vera Bassoi)

A minha, a sua,

A dele, a dela,

A nossa criança interior

Tem a mesma necessidade: Amor.

Tão logo nasce, sente o medo

Do desconhecido e da separação;

Chora, não pelo tapinha,

Mas pela dor da respiração.

Esse serzinho

Protegido no ventre materno

Recebe tudo de graça

E não necessita do ar.

Repentinamente se vê expulso

A trilhar por estreito caminho

Sem saber que na raça

Vai ter que respirar.

Chora pelo medo,

Pela insegurança e pela dor.

Sem entender o que se passa

Ouve alguém dizer: eis a vida!

Então, num relance compreende

Que essa é a porta de chegada.

Seguirá por conta própria a caminhada

Até a hora da saída.

De cabeça para baixo

Foi acolhida.

De cabeça para cima

Deve seguir na vida.

Dor, sofrimento.

Sofrimento, dor.

Só pode ir em frente

Se confiar no amor.

Nos braços e no seio

Da mãe proteção,

A confiança se restaura

E diminui a apreensão.

Ilusoriamente vivendo

Na indiferenciação,

Onde ela e a mãe

São uma só,

Desperta para a consciência

Da individualização,

Onde o drama e a trama

Começam a dar nó.

Instala-se na frágil criança

Perene estado de alerta.

Surge a necessidade

De procurar ser esperta.

A ordem interna é não sofrer.

Começa, então, a se proteger.

Essa criança precisa sobreviver

E para tanto, tem que vencer.

Desenvolve a arte de manipular,

De mentir, de agradar,

De atacar ou recuar.

De adoecer ou gritar.

Fecha-se numa concha

Ou abre-se para o mundo.

Contenta-se com pouco

Ou vira um saco sem fundo.

O desenrolar natural

Do processo de vida

Cria nessa criança

Uma grande ferida.

E a quem cabe cuidar?

Àquele que, dentro de si,

Descobre a sua criança

Acuada, rejeitada, esquecida,

Medrosa ou destemida,

Pessimista ou otimista

Preguiçosa ou ativa

Briguenta ou pacifista

Desenvolvendo a compreensão

Da realidade humana,

Tirando os véus da ilusão

E não se enfiando na cama,

É capaz de estender os braços

E entre soluços clamar:

– “Vem, minha criança,

O meu colo é o seu lugar!”

Poema Sugerido lindamente Por Simoni Karine Doy –

Psicóloga, Criadora e Facilitadora do “Entre as Mulheres – Círculo Feminino”.

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A Minha Criança Interior- Por Simoni Doy

20 de Agosto, Terminal Rodoviário Tietê, voltando de um final de semana de imersão (Mentoria de Anna Patrícia Bogado) na qual me conectei intensamente com o meu feminino e com o amor que existe entre as mulheres, recebo uma mensagem de meu irmão sobre a possibilidade de escrever um artigo para uma revista. Meu coração, que estava cheio de amor, naquele momento disse um grande “sim”!

Dias depois, a recomendação foi “um assunto que fosse relativo à crianças”. De imediato meu cérebro já começou a fazer uma pesquisa interna sobre tantos temas relativos à crianças com os quais, comigo mesma, eu já havia refletido, debatido, defendido, repudiado e que agora teriam a oportunidade de serem compartilhados!

Mas antes de escolher um tema “polêmico”, silenciei.

Então veio em meu coração “Criança Interior”. O diálogo a seguir não tem base em estudos detalhados sobre o tema, mas sim, de minha experiência, sensibilidade e observação.

Meu primeiro contato com o tema foi por meio de uma querida mulher, Tatiane Guedes. Em seus vídeos pude vivenciar o  encontro com a minha criança, a menina que um dia eu fui e que ainda vive dentro de mim.

Em um de seus vídeos, Tatiane sugere uma meditação guiada na qual ela nos leva ao encontro com nossa criança. Sim, aquela que um dia foi “ferida”. E esta, de fato, foi minha primeira memória ao encontrar com minha criança, as experiências tristes. Sugestionada pela doce voz de Tatiane, acolhi minha criança.

Nossas experiências enquanto crianças, “boas” e “más”, contribuem fundamentalmente para a formação de nossa personalidade, sabe aquela armadura que apresentamos para a sociedade e que nos protege, as vezes, dos acontecimentos que ferem nossa alma? Essa.

No meu segundo encontro com minha criança, ela pegou minha mão e sorriu. A pequena Simoni disse pra mim: “Eu estou feliz e está tudo bem.” Naquele momento me dei conta de que, enquanto adulta acreditasse que existiram mais momentos “ruins” do que “bons” na minha infância, minha criança estava ali me dizendo estava TUDO BEM. E assim, resgatei em minha memória (com mais esforço do que para resgatar as memórias tristes)  que eu era uma criança feliz na maior parte do tempo. Minha vida infantil era uma festa, eu celebrava momentos simples. Tive o amor de minha família, boas oportunidades, estudei, fiz amigos, brinquei e briguei pelo que acreditava.

 Minha contribuição é um convite para olharmos com carinho para a criança que fomos. E sem julgamento de valor (bom ou ruim), observarmos nossas experiências, tendo a certeza de que fizemos, ao longo de nossa história, o melhor que poderíamos ter feito. Fomos nossa melhor versão até agora. E este é momento de reavaliar se precisamos continuar com a mesma armadura ou se podemos afrouxa-la um pouquinho, já que não somos mais aquela criança indefesa.

 A criança possui o mais forte fluxo do amor, pois ainda não recebeu tantas informações e julgamentos da vida.

 Meu desejo é que possamos, vez em quando, dar uma espiadinha na nossa criança e nos nutrir deste olhar amoroso.

Por Simoni Karine Doy –

Psicóloga, Criadora e Facilitadora do “Entre as Mulheres – Círculo Feminino”.

Aquele dia

Sabe aquele dia que você acorda e já ocorre uma “cagada”?
Quem nunca?
Hoje aconteceu literalmente,  assim que sentei na terrazza.
Mas depois, como pedido de desculpas, ele(a) me convidou para tomar um café e me fez companhia.

Enquanto isso, eu fazia minhas anotações e degustava o café quente, o sabor doce da geleia misturado com a manteiga derretida na tostada crocante …

Dividimos a tostada e vez ou outra chegava um amigo para partilha.

O frescor da manhã acariciava o meu rosto e os raios de sol me seduziam refletindo nas folhas das imensas árvores. 

E eles embalavam minha contemplação do momento presente com suas delicadas canções. 


Minha atenção vez ou outra era roubada pela conversa empolgante das senhoras à minha frente, que contagiavam o ambiente com suas gargalhadas.


O brilho da manhã e eles dançavam em festa. 


Ah…
Quanto a roupa suja e o incidente da manhã? 


Desaparecem quando ele (a) me perguntou:


-É realmente isso que vai ser merecedor da sua atenção? Aquilo que ocorre e do qual você não tem controle algum?
Enquanto seus sentidos são presenteados por uma natureza exuberante, sabores intensos, relações merecedoras de afeto, experiências e trocas constantes. 


É realmente isso que deseja absorver e carregar dentro de si durante todo o seu dia?
Olhei carinhosamente para ele, assim como para todos os momentos, situações e pessoas que não estão sob meu controle e me entreguei intensamente aos meus sentidos…


Senti a Vida pulsando em mim.


Foi quando lhe ofereci minha tostada e partilhamos nosso desayuno.

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Por Gizele Cordeiro

 

No caminho dos cometas, fomos.

Por Gizele Cordeiro

Hoje faz um ano que “agarramos” a cauda do cometa.

O cometa é apenas um corpo menor do sistema solar, e nossa decisão de partir foi apenas mais uma das experiências que decidimos vivenciar nesse nosso sistema complexo chamado Vida.

Sob a mesma atmosfera difusa que um cometa passa a exibir diante do sol, nossa escolha envolvia um futuro  incerto, diante dessa nova decisão: morar em outro País.

Atravessar fronteiras, internas e externas, e partilhar de uma nova cultura era algo que nos envolvia e motivava e ao mesmo tempo nos amedrontava.

Ultrapassar as fronteiras do comodismo, do espaço já conhecido e dominado, do trabalho já estabelecido, das máscaras agarradas à nossa identidade, parecia algo assustador.

O pensamento é o ensaio da ação, já disse Freud.

Nossos pensamentos alimentados por anos, se assemelhava  a “cauda” do cometa, que assim como nossos sonhos, pareciam alimentados por pequenas partículas existentes mas que de tão raro ao olho nú, estava a milênios de quilômetros das possibilidades de acontecer.

Mas sim, eles existem e são  possíveis.

Dedicar-se a olhar para o céu com mais frequência em busca daquele sonho único que criava borboletas no estômago, em que teríamos que decidir,  foi um dos ingredientes que adicionamos ao nosso planejamento.

Sentir e vivenciar as mudanças necessárias internamente foi o primeiro passo, pois caminhar com a caixinha de sempre enquadrada na cabeça poderia apenas fazer com que caminhássemos em círculos.

E então começamos um processo de desapego do nosso ritmo e rotina, pouco a pouco, diminuindo o envolvimento no espaço que já não desejávamos pertencer.

A razão e planejamento foram apenas alguns recursos mas foi através da autopercepção, da partilha dos sentimentos mútuos e da construção interna do como desejávamos sentir e estar,  que foram nossos guias internos.

Preparar-se para lidar com o desconhecido, ampliar os olhares para as possibilidades presentes e D-E-C-I-D-I-R, apesar do medo do novo e inesperado.

A primeira decisão e comunhão, foi a interna, e aconteceu muito tempo antes da partida.

E hoje completamos um ano que mudamos para a Espanha, um ano que agarramos a cauda do cometa.

Um ano em que o termo “zona de conforto” fugiu de nosso dicionário pessoal e nos trouxe congruência entre nossas palavras e ações, e não consigo descrever o quão libertador isso foi.

Um ano que comparados aos núcleos cometários graças aos compostos de gelo, literalmente o frio que não gosto e tive que me adaptar,  às partículas de poeira, que foram as pequenas e muitas ações que construíram nossa vinda, e os pequenos fragmentos rochosos das ações humanas, fizeram com que esse ano se transformasse em dez anos de crescimento pessoal.

Um ano em que o Brasil continua sendo nossa eterna casa e escolhemos o Mundo como nosso quintal.
E o bom é que a gente pode sempre escolher onde permanecer pois aprendemos que quanto mais fronteiras ultrapassamos, internas ou externas,  mais autonomia ganhamos para exercer a nossa liberdade de estar onde desejamos estar e ser o que desejamos ser.

E para isso  precisamos aprender a nos refazer, ressignificar as más escolhas, como por exemplo não dominar a lingua do país de destino, não fazer aulinhas também conta como resistência…(gargalhadas) que só o autoconhecimento fará você perceber, adaptar-se à sua nova realidade e aceitar as perdas de toda decisão.

Sim, toda escolha incluem perdas.

É preciso ir se fortalecendo para perder o supérfluo- e isso leva tempo, abrir mão do espaço no qual você já não se encaixa,  para se conectar ao que, com o tempo, se tornou essencial, e para isso começamos respondendo uma das principais  perguntas que fazíamos sempre:

-Quais são os sentimentos, vivências e valores essenciais para nós?

E isso nos ajudou muito.

Hoje faz um ano, e sim,  vivenciamos muitos momentos doloridos, daqueles em que ficamos mais vulneráveis e nos vimos sozinhos.

E  a solidão se tornou berço do nosso crescimento. A solidão também nos mostrou quem realmente estava ao nosso lado, torcendo, apoiando e impulsionando esse nosso crescimento e ela veio trazendo consigo uma linha divisória dos que ficaram e dos que ainda trazemos em nossos corações.

Um ano de riqueza emocional graças ao multiculturalismo, às trocas de experiências, afetividade e “choques”, daqueles que desestruturam qualquer Ego dominante.

Histórias, estórias e encontros que recheiam nossa caminhada de afeto e partilhas.

Gente por toda parte, aguçando nossa riqueza profissional e espiritual…

Nos enriquecendo como Gente!

Como cantou Caetano,

“Gente espelho de estrelas,
reflexo do esplendor
Se as estrelas são tantas,
só mesmo o amor”

Sim, muitas estradas nos ensinaram a ampliar e mergulhar profundamente no  Amor e empatia…

Muitas estradas percorridas, internas e externas, com momentos e experiências que apesar de tudo e graças a tudo que vivenciamos até o momento,

jamais voltaremos a ser aqueles que partiram…

Mas estamos aqui graças a tudo que fomos antes de partir.

E essa luz estelar preenche meu peito de gratidão, pela nossa história e por tudo que ainda podemos vir a ser.

E assim como os cometas, com uma grande e extensa variedade de períodos orbitais diferentes, variando de poucos anos a centenas de milhares de anos, soubemos aproveitar algumas oportunidades e momentos que só acontecem algumas vezes na vida (nas nossas e na sua, com certeza…)

E como não vivemos milhares de anos,  só pela coragem –  agir com o coração – de vivenciar nossas escolhas e experiências, me sinto plena!

Pois, “cada estrela se espanta à própria explosão…”

 

 

PS. Gratidão especial a minha amiga de todas as horas Simoni Karine Doy, sem você, eu não conseguiria.
E a família, imensa gratidão.

 

O caminho de Volta – Por Téta Barbosa

“Já estou voltando.
Só tenho 37 anos e já estou fazendo o caminho de volta.
Até o ano passado eu ainda estava indo…

Indo morar no apartamento mais alto, do prédio mais alto, do bairro mais nobre.
Indo comprar o carro do ano, a bolsa de marca, a roupa da moda.
Claro que para isso, durante o caminho de ida, eu fazia hora extra, fazia serão, fazia dos fins de semana eternas segundas-feiras.

Até que um dia, meu filho quase chamou a babá de mãe…
Mas, com quase 40, eu estava chegando “lá”!

Onde mesmo?
Ninguém conseguiu responder…

Eu imaginei que quando chegasse lá ia ter uma placa com a palavra “Fim”. Mas antes dela, avistei a placa de “Retorno” e, nela mesmo, dei meia volta.

Comprei uma casa no campo (maneira chique de falar, mas ela é no meio do mato mesmo).
É longe que só a gota serena! Longe do prédio mais alto, do bairro mais chique, do carro mais novo, da hora extra, da babá quase mãe.

Agora tenho menos dinheiro e mais filho. Menos marca e mais tempo.

E num é que meus pais (que quando eu morava no bairro nobre me visitaram quatro vezes em quatro anos) agora vêm pra cá todo fim de semana?
E meu filho anda de bicicleta, e eu rego as plantas, e meu marido descobriu que gosta de cozinhar (principalmente quando os ingredientes vêm da horta que ele mesmo plantou).

Por aqui, quando chove a internet não chega. Fico torcendo para que chova, porque é quando meu filho, espontaneamente (por falta do que fazer mesmo) abre um livro e, pasmem, lê!
E no que alguém diz “a internet voltou!” já é tarde demais porque o livro já está muito mais interessante que o Facebook, o Instagram e o Twitter juntos.

Aqui se chama “Aldeia” e tal qual uma aldeia indígena, vira e mexe eu faço a dança da chuva, um chá com uma plantinha e a rede de cama.

No São João, assamos milho na fogueira. Aos domingos converso com os vizinhos. Nas segundas, vou trabalhar contando as horas para voltar.

Aí eu lembro da placa “Retorno” e acho que nela deveria ter um subtítulo que diz assim: “Retorno – Última Chance de Você Salvar Sua Vida!”

Você, provavelmente, ainda está indo. Não é culpa sua. É culpa do comercial que disse: “Compre um e leve dois!”.

Nós, da banda de cá, esperamos a sua visita. Porque sim, mais cedo ou mais tarde, você também vai querer fazer o caminho de volta.

“O caminho de volta”
Crônica de Téta Barbosa – mãe, jornalista, publicitária, mora no Recife e vive antenada com tudo o que se passa ali e fora dali.”

Esconderijos

Às vezes sinto falta
daquela menina de anos atrás
Que acreditava na luz do mundo
Na bondade dos desconhecidos
Na reciprocidade dos amigos
Na ingenuidade do Amor
Que por sí reluziria a todos
Aquele desejo intenso
de que na partilha…
alí estaria, o milagre do afeto!
Ninando os corações sob seu olhar
E o mundo
Ah esse seu Mundo agora
Tão desafetado pela humanidade
Tendo seu coração como moradia
Testemunhado apenas
Pelas belezas naturais
Escondida dentro desse seu sorriso
Com medo de que a luz que lhe resta
Escape nas águas dos poucos afetos
Que a rodeiam
E o seu Mundo?
Já não existe mais

Por Gizele Cordeiro –  A menina

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Por Genifer Gerhardt

Estou cansada, sabe, filho?
Cansada.
Deito assim ao fim do dia e o incêndio dos tempos caçoa de meu corpo que,
derrubado,
busca dormir.
Cansada. E nem é de ti, pequeno.
Cansada do balanço das ondas. Do não cessar.

Estou cansada da imensidão da batalha.
Dos ‘ismos’ e ‘istas’ caçoando de nós.
Dos discursos inflamados sem ouvidos.
Dos dinossauros dos nossos tempos.

Estou cansada dos seguranças da feira pedindo para que o homem saia dali
– o homem, aquele, o negro, que toca seu pandeiro com uma caixa de papelão ao lado.
Estou cansada do meu cansaço
e dos meus silêncios que ainda perduram tempo demais.

Estou cansada dos olhos dos homens
mas cansada também das ilhas das mulheres.
Das cicatrizes desnecessárias
do que já deveria ser cura.

( Cansada do frio que não aquece em abraço )

Estou cansada, filho, dos temores da minha geração
e mais cansada ainda
dos temores que implantam na tua.

E eu, agora, deito ao teu lado,
mão com mão
e toda noite é refúgio para cansaço.
Mas sei, filho,
– sei –
que amanhã floresceremos em mais coragem.
E que na noite seremos mais uma vez
conchas
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mas reunidas em beira de mar que vai e vem e vai e vem e.

( Estou cansada
mas o desastre não é morada )

Estou atenta, sabe, filho…
e todas as esperanças também residem em mim.
Por essas mãos entrelaçadas
– filho –
a gente também constrói marés.

A gente também
constrói
marés.

E nosso fôlego
é nosso (a)mar.

Por Genifer Gerhardt

Porto Alegre/RS, 1º de julho de 2017.

Foto: Por Júlio Bernabé, olhar de esposo e Pai apaixonado. 

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