Histórias do Mundo – Tião Afeto1

Nessa caminhada, fui afetada por Tião…
Quer conhecer essa história?

Que o seu afeto me Afetou é fato, agora faça-me o favor… (O Teatro Mágico)

 

Encruzilhada

Toda vez que pego minha mochila vazia penso o quão pequena é, não tenho nada.
Toda vez que coloco a minha mochila nas costas e caminho mais que 100 metros, agradeço por só ter o necessário.
Quanto mais desafiadora e longa a caminhada mais percebo que preciso me desfazer do que me pesa, sejam crenças, sentimentos ou emoções.
A eterna encruzilhada:
Um caminho que me aponta a mochila vazia e o desejo de preenche-la com tudo mas que pode me custar a estagnação emocional.
Outro caminho que me coloca diante do sentir; o que sou, e não o que tenho ou o que faço.
Mas em todos os caminhos traçados por meus pés, tenho tido o cuidado de não deixar a mochila pesar a ponto de machucar minhas asas…

 

Por GizeleCordeiro

Desprender-se! O caminho que nos flui…

Visto as palavras de Fernando Pessoa:

“A Renúncia é a libertação. Não querer é Poder.”

  A sala já estava vazia, ao nosso redor só restavam nossos livros e cds, e as fotos da família ainda na parede. Nos outros cômodos só permanecia  nossa cama de casal, para fazer dos nossos últimos dias naquela casa, momentos mais acolhedores.

  No movimento desenfreado de resolver detalhes, organizar a viagem, sinto como se fosse agora a sensação de alívio ao ver a casa vazia…é como se o Mundo se abrisse diante de mim e convidasse a mergulhar no espaço do não saber, e embora o frio na barriga fosse intenso, a sensação de liberdade ganhava minha alma…

  Em um momento estava na sala separando os livros, e recordei a frase de um amigo:

  • Quando a caminhada é longa, temos que ter cuidado com o que levamos na mochila, podem haver pesos desnecessários.

  Nunca essa frase tinha feito tanto sentido do que naquele momento de minha vida, o momento de recomeçar em direção ao desconhecido.

14344081_1269262689750954_1479820779169045607_n Aprendi que acumulamos coisas desnecessárias, na Vida e na Alma…

  Em vários momentos de minha vida a casa vazia era sinônimo de alegria e diversão, o Nada transformado em Tudo, tínhamos o Essencial:  as brincadeiras das crianças , os momentos de sentar ao chão para repartir o lanche, o entusiamo com as novas possibilidades…

  Restavam as pessoas ao meu redor e a nossa capacidade de estarmos juntos, momentos de compartilhar!

  E reviver esse momento depois de uma história de sucesso profissional e familiar, por vontade própria era exercer a essência do livro arbítrio.

  Exercer o Desapego como des-pren-di-men-to…

  Não como indiferença à tudo que tinha feito parte da Minha vida, um desapego com gratidão por todas as coisas que fizeram  parte da minha história, por todas as pessoas que floreiam minha Vida, e que, por liberdade do amor, não me sentia presa.

  Por todas as relações de afeto e cumplicidade que permitiam deixar minha Vida fluir com o Universo.

  Cumprimos a nossa Missão e agora estávamos em direção à uma nova.

  Quando o apego é intenso nos prendemos à rotinas, objetos,  ciclos viciosos e pessoas, não com liberdade mas com Medo.

  O único Medo é de sofrer a perda e nada mais nos restar.

  Queremos exercer a plena liberdade mas não queremos sentir dor. Não compreendemos que quanto mais  firmes e inflexíveis forem os laços que nos prendem à situações, pessoas ou coisas, mais sentiremos dor ao tentar o desprendimento.

  Mais nos confundiremos com aquilo que pensamos possuir.

  Mas conviver com a instabilidade é algo desafiador para a humanidade, então criamos a fantasia de posse e eternidade, talvez, por não estarmos ligados diretamente com nosso Poder de criação.

  Mas você não sentiu o Desapego?

  Senti intensamente: Medo, insegurança, tristeza, euforia, ansiedade, vontade de desistir…abandonar as máscaras que me protegiam nesse caminho conhecido, talvez tenha sido (e ainda é ) o mais desafiador.

Mergulhei no aprendizado que sempre ensinei aos meus pacientes: o Jardineiro não é o seu Jardim.

Mas o  sentir é o que me reconecta a cada dia ao meu poder de criação e alimenta a sensação de empoderamento e congruência: Eu estava, naquelas escolhas, sendo leal e fiel à todas as minhas crenças e valores, praticando tudo o que eu palestrava, exercendo minha autonomia no Mundo.

E o que mais alimentava minha insegurança?

As pessoas a minha volta, buscando respostas que eu ainda não havia encontrado…e talvez jamais encontrarei, pois as respostas nos iludem com a sensação de conforto.

Necessitamos estar convictos com certezas que jamais teremos de experiências que ainda não vivenciamos. E então, deixamos de vivenciar o Novo, amadurecer e crescer por não termos  respostas…

Decidimos (eu e meu marido) nessa nova jornada,  nos entregar ao  “Espaço do Não Saber”.

Já dizia Jung:

“Não há despertar de consciência sem dor. As pessoas farão de tudo, chegando aos limites do absurdo, para evitar enfrentar à sua própria alma. Ninguém se torna iluminado por imaginar figuras de luz, mas sim por tornar consciente a escuridão.”

Ah! mas quando mergulhamos na luz do Universo…

E ainda nos encontramos nesse espaço como crianças que iniciam uma nova aventura trazendo apenas o essencial: O que Somos e os sentimentos que construímos em toda nossa história de Vida.

As crianças têm a sabedoria de mergulhar no momento presente e vivencia-lo como protagonistas,  constroem as suas histórias; e elas também precisam sentir-se seguras mas a diferença é que a criança se vê capaz de construir sua segurança onde quer que esteja.

São sábios mestres.

E o que nós desejamos?

Mergulhar intensamente no que o Universo nos trouxer, sendo protagonistas na construção de um Mundo mais afetivo e Humano.

Se fosse apenas por dinheiro e status, continuaríamos presos onde estávamos.

Quando um caminho ou as relações começam a prender a nossa capacidade de crescer e evoluir, é hora de deixa-lo, refazê-lo ou ressignificá-lo.

Agora é hora de fluir…

Para onde e como? 

Não sabemos e isso já não nos Amedronta mais.

Só garantimos que o aqui e agora está sendo regado com nossos valores.

Mas o Afeto…

Ah, isso é tudo que alimenta minha alma nessa caminhada e tudo que sinto é Gratidão!

Tudo o que Temos é Tudo o que Somos e  a isso costumo chamar de Liberdade…

Por Gizele Cordeiro

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Entregar-se ao Afeto!
Onde há julgamentos há falta de afeto.
Morremos de sede mesmo tendo um oásis à nossa frente.
Nos protegemos da afetividade pois nos ensinaram que demonstrar afeto nos tornam seres frágeis, vulneráveis…
Diariamente, vestimos nossa armadura e caminhamos para Mundo sedentos de afeto.
E nos tornamos tão insensíveis com a escassez que quando encontramos a abundância, não sabemos Mergulhar.
Reclamamos, julgamos, nos escondemos atrás de justificativas e jogos onde sentimentos e emoções saudáveis não cabem.
Mergulhar na afetividade, tendo inteligência emocional para se equilibrar na linha tênue, entre o amar e se permitir ser amado é o convite que a Vida nos lança, todos os dias.

Silêncio – Por André J. Gomes

O Silêncio é uma prece e faz bem rezar um pouquinho…

Pois em meio a esse barulho todo, esse debate infinito, esse falatório, esse tanto que dizer e essas coisas todas por ouvir, acontece da gente calar um instante.

É que tem hora em que falar e ouvir fazem mal. A gente sente que uma só palavra vai nos fazer explodir. Aí só o silêncio nos salva.

Ele vem voando como um anjo generoso e sutil nos acolher sob asas calmas. Então voltamos ao remanso que existia antes de nós. O silêncio da madrugada em que as crianças dormem, as plantas crescem, o pensamento repousa.

Tem dias em que toda gente só precisa ficar quieta em seu canto, dizer ao mundo: “não, hoje eu não quero sair. Vou ficar aqui dentro de mim mesmo”. Depois se deixar em franca quietude, esperando doer a dor, que doa, pode doer. E se alguém perguntar “por quê?”, a resposta será nenhuma.

É preciso fazer silêncio, respirar devagar, dormir e acordar tantas vezes quanto o corpo e a alma pedirem. Descansar os músculos na cama que nos abraça com nosso cheiro, como um carinho antigo em cada pedacinho de nós.

Que o silêncio venha nos varrer por dentro, tal qual a casa de móveis revirados em manhã de faxina, as vassouras arrastando de cantos escondidos a sujeira velha, cacos de vidro, pedaços de linha suja, botões perdidos de camisas desaparecidas, asas de inseto, unhas cortadas, emaranhados de cabelo vencidos por tanta chateação, lã de cobertor, pele morta e poeira velha arrancada de tanta sombra em nosso aqui dentro.

Ahh… silêncio, escancara essas janelas pesadas, inunda de sol nosso peito trancado de angústias gritadas em falatório inútil. Esfrega com escova grossa e sabão concentrado nossas paredes encardidas de tanta craca acumulada. Enxágua com esguicho a gordura das reclamações inúteis, o pó rasteiro das picuinhas. Limpa a imundície das falas inúteis, ofensas, injúrias, berros, misérias, invejas. Liberta as palavras de todo mau uso, mergulha suas sílabas em baldes de álcool, lava seus vãos e desvãos e reentrâncias. Deixa-as de novo frescas, livres do burburinho tacanho. Puras à espera de outros usos além do ataque, da intriga e da empáfia.

Como o corpo que jejua, toda alma precisa do silêncio que a liberte de vozes indigestas, desaforos gratuitos, elogios falsos, comentários mesquinhos.

Só o silêncio nos livra de tanto veneno. E quando estivermos restabelecidos, uma enfermeira de olhos risonhos nos encontrará silenciosa, o indicador sobre os lábios, e nos dirá palavra nenhuma, em seu aviso de que a saúde é franca, a paciência é um remédio e o silêncio a tudo refaz. Porque tem hora em que, depois de tanta falação, é preciso silêncio. Não há mais o que dizer. Tem hora em que só a mudez nos fala, nos cura e nos ensina de novo a estar em paz.
* André J. Gomes é jornalista de formação, publicitário de ofício, professor por desafio e escritor por amor à causa.
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