Aquele dia

Sabe aquele dia que você acorda e já ocorre uma “cagada”?
Quem nunca?
Hoje aconteceu literalmente,  assim que sentei na terrazza.
Mas depois, como pedido de desculpas, ele(a) me convidou para tomar um café e me fez companhia.

Enquanto isso, eu fazia minhas anotações e degustava o café quente, o sabor doce da geleia misturado com a manteiga derretida na tostada crocante …

Dividimos a tostada e vez ou outra chegava um amigo para partilha.

O frescor da manhã acariciava o meu rosto e os raios de sol me seduziam refletindo nas folhas das imensas árvores. 

E eles embalavam minha contemplação do momento presente com suas delicadas canções. 


Minha atenção vez ou outra era roubada pela conversa empolgante das senhoras à minha frente, que contagiavam o ambiente com suas gargalhadas.


O brilho da manhã e eles dançavam em festa. 


Ah…
Quanto a roupa suja e o incidente da manhã? 


Desaparecem quando ele (a) me perguntou:


-É realmente isso que vai ser merecedor da sua atenção? Aquilo que ocorre e do qual você não tem controle algum?
Enquanto seus sentidos são presenteados por uma natureza exuberante, sabores intensos, relações merecedoras de afeto, experiências e trocas constantes. 


É realmente isso que deseja absorver e carregar dentro de si durante todo o seu dia?
Olhei carinhosamente para ele, assim como para todos os momentos, situações e pessoas que não estão sob meu controle e me entreguei intensamente aos meus sentidos…


Senti a Vida pulsando em mim.


Foi quando lhe ofereci minha tostada e partilhamos nosso desayuno.

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Por Gizele Cordeiro

 

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No caminho dos cometas, fomos.

Por Gizele Cordeiro

Hoje faz um ano que “agarramos” a cauda do cometa.

O cometa é apenas um corpo menor do sistema solar, e nossa decisão de partir foi apenas mais uma das experiências que decidimos vivenciar nesse nosso sistema complexo chamado Vida.

Sob a mesma atmosfera difusa que um cometa passa a exibir diante do sol, nossa escolha envolvia um futuro  incerto, diante dessa nova decisão: morar em outro País.

Atravessar fronteiras, internas e externas, e partilhar de uma nova cultura era algo que nos envolvia e motivava e ao mesmo tempo nos amedrontava.

Ultrapassar as fronteiras do comodismo, do espaço já conhecido e dominado, do trabalho já estabelecido, das máscaras agarradas à nossa identidade, parecia algo assustador.

O pensamento é o ensaio da ação, já disse Freud.

Nossos pensamentos alimentados por anos, se assemelhava  a “cauda” do cometa, que assim como nossos sonhos, pareciam alimentados por pequenas partículas existentes mas que de tão raro ao olho nú, estava a milênios de quilômetros das possibilidades de acontecer.

Mas sim, eles existem e são  possíveis.

Dedicar-se a olhar para o céu com mais frequência em busca daquele sonho único que criava borboletas no estômago, em que teríamos que decidir,  foi um dos ingredientes que adicionamos ao nosso planejamento.

Sentir e vivenciar as mudanças necessárias internamente foi o primeiro passo, pois caminhar com a caixinha de sempre enquadrada na cabeça poderia apenas fazer com que caminhássemos em círculos.

E então começamos um processo de desapego do nosso ritmo e rotina, pouco a pouco, diminuindo o envolvimento no espaço que já não desejávamos pertencer.

A razão e planejamento foram apenas alguns recursos mas foi através da autopercepção, da partilha dos sentimentos mútuos e da construção interna do como desejávamos sentir e estar,  que foram nossos guias internos.

Preparar-se para lidar com o desconhecido, ampliar os olhares para as possibilidades presentes e D-E-C-I-D-I-R, apesar do medo do novo e inesperado.

A primeira decisão e comunhão, foi a interna, e aconteceu muito tempo antes da partida.

E hoje completamos um ano que mudamos para a Espanha, um ano que agarramos a cauda do cometa.

Um ano em que o termo “zona de conforto” fugiu de nosso dicionário pessoal e nos trouxe congruência entre nossas palavras e ações, e não consigo descrever o quão libertador isso foi.

Um ano que comparados aos núcleos cometários graças aos compostos de gelo, literalmente o frio que não gosto e tive que me adaptar,  às partículas de poeira, que foram as pequenas e muitas ações que construíram nossa vinda, e os pequenos fragmentos rochosos das ações humanas, fizeram com que esse ano se transformasse em dez anos de crescimento pessoal.

Um ano em que o Brasil continua sendo nossa eterna casa e escolhemos o Mundo como nosso quintal.
E o bom é que a gente pode sempre escolher onde permanecer pois aprendemos que quanto mais fronteiras ultrapassamos, internas ou externas,  mais autonomia ganhamos para exercer a nossa liberdade de estar onde desejamos estar e ser o que desejamos ser.

E para isso  precisamos aprender a nos refazer, ressignificar as más escolhas, como por exemplo não dominar a lingua do país de destino, não fazer aulinhas também conta como resistência…(gargalhadas) que só o autoconhecimento fará você perceber, adaptar-se à sua nova realidade e aceitar as perdas de toda decisão.

Sim, toda escolha incluem perdas.

É preciso ir se fortalecendo para perder o supérfluo- e isso leva tempo, abrir mão do espaço no qual você já não se encaixa,  para se conectar ao que, com o tempo, se tornou essencial, e para isso começamos respondendo uma das principais  perguntas que fazíamos sempre:

-Quais são os sentimentos, vivências e valores essenciais para nós?

E isso nos ajudou muito.

Hoje faz um ano, e sim,  vivenciamos muitos momentos doloridos, daqueles em que ficamos mais vulneráveis e nos vimos sozinhos.

E  a solidão se tornou berço do nosso crescimento. A solidão também nos mostrou quem realmente estava ao nosso lado, torcendo, apoiando e impulsionando esse nosso crescimento e ela veio trazendo consigo uma linha divisória dos que ficaram e dos que ainda trazemos em nossos corações.

Um ano de riqueza emocional graças ao multiculturalismo, às trocas de experiências, afetividade e “choques”, daqueles que desestruturam qualquer Ego dominante.

Histórias, estórias e encontros que recheiam nossa caminhada de afeto e partilhas.

Gente por toda parte, aguçando nossa riqueza profissional e espiritual…

Nos enriquecendo como Gente!

Como cantou Caetano,

“Gente espelho de estrelas,
reflexo do esplendor
Se as estrelas são tantas,
só mesmo o amor”

Sim, muitas estradas nos ensinaram a ampliar e mergulhar profundamente no  Amor e empatia…

Muitas estradas percorridas, internas e externas, com momentos e experiências que apesar de tudo e graças a tudo que vivenciamos até o momento,

jamais voltaremos a ser aqueles que partiram…

Mas estamos aqui graças a tudo que fomos antes de partir.

E essa luz estelar preenche meu peito de gratidão, pela nossa história e por tudo que ainda podemos vir a ser.

E assim como os cometas, com uma grande e extensa variedade de períodos orbitais diferentes, variando de poucos anos a centenas de milhares de anos, soubemos aproveitar algumas oportunidades e momentos que só acontecem algumas vezes na vida (nas nossas e na sua, com certeza…)

E como não vivemos milhares de anos,  só pela coragem –  agir com o coração – de vivenciar nossas escolhas e experiências, me sinto plena!

Pois, “cada estrela se espanta à própria explosão…”

 

 

PS. Gratidão especial a minha amiga de todas as horas Simoni Karine Doy, sem você, eu não conseguiria.
E a família, imensa gratidão.

 

O caminho de Volta – Por Téta Barbosa

“Já estou voltando.
Só tenho 37 anos e já estou fazendo o caminho de volta.
Até o ano passado eu ainda estava indo…

Indo morar no apartamento mais alto, do prédio mais alto, do bairro mais nobre.
Indo comprar o carro do ano, a bolsa de marca, a roupa da moda.
Claro que para isso, durante o caminho de ida, eu fazia hora extra, fazia serão, fazia dos fins de semana eternas segundas-feiras.

Até que um dia, meu filho quase chamou a babá de mãe…
Mas, com quase 40, eu estava chegando “lá”!

Onde mesmo?
Ninguém conseguiu responder…

Eu imaginei que quando chegasse lá ia ter uma placa com a palavra “Fim”. Mas antes dela, avistei a placa de “Retorno” e, nela mesmo, dei meia volta.

Comprei uma casa no campo (maneira chique de falar, mas ela é no meio do mato mesmo).
É longe que só a gota serena! Longe do prédio mais alto, do bairro mais chique, do carro mais novo, da hora extra, da babá quase mãe.

Agora tenho menos dinheiro e mais filho. Menos marca e mais tempo.

E num é que meus pais (que quando eu morava no bairro nobre me visitaram quatro vezes em quatro anos) agora vêm pra cá todo fim de semana?
E meu filho anda de bicicleta, e eu rego as plantas, e meu marido descobriu que gosta de cozinhar (principalmente quando os ingredientes vêm da horta que ele mesmo plantou).

Por aqui, quando chove a internet não chega. Fico torcendo para que chova, porque é quando meu filho, espontaneamente (por falta do que fazer mesmo) abre um livro e, pasmem, lê!
E no que alguém diz “a internet voltou!” já é tarde demais porque o livro já está muito mais interessante que o Facebook, o Instagram e o Twitter juntos.

Aqui se chama “Aldeia” e tal qual uma aldeia indígena, vira e mexe eu faço a dança da chuva, um chá com uma plantinha e a rede de cama.

No São João, assamos milho na fogueira. Aos domingos converso com os vizinhos. Nas segundas, vou trabalhar contando as horas para voltar.

Aí eu lembro da placa “Retorno” e acho que nela deveria ter um subtítulo que diz assim: “Retorno – Última Chance de Você Salvar Sua Vida!”

Você, provavelmente, ainda está indo. Não é culpa sua. É culpa do comercial que disse: “Compre um e leve dois!”.

Nós, da banda de cá, esperamos a sua visita. Porque sim, mais cedo ou mais tarde, você também vai querer fazer o caminho de volta.

“O caminho de volta”
Crônica de Téta Barbosa – mãe, jornalista, publicitária, mora no Recife e vive antenada com tudo o que se passa ali e fora dali.”

Esconderijos

Às vezes sinto falta
daquela menina de anos atrás
Que acreditava na luz do mundo
Na bondade dos desconhecidos
Na reciprocidade dos amigos
Na ingenuidade do Amor
Que por sí reluziria a todos
Aquele desejo intenso
de que na partilha…
alí estaria, o milagre do afeto!
Ninando os corações sob seu olhar
E o mundo
Ah esse seu Mundo agora
Tão desafetado pela humanidade
Tendo seu coração como moradia
Testemunhado apenas
Pelas belezas naturais
Escondida dentro desse seu sorriso
Com medo de que a luz que lhe resta
Escape nas águas dos poucos afetos
Que a rodeiam
E o seu Mundo?
Já não existe mais

Por Gizele Cordeiro –  A menina

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Por Genifer Gerhardt

Estou cansada, sabe, filho?
Cansada.
Deito assim ao fim do dia e o incêndio dos tempos caçoa de meu corpo que,
derrubado,
busca dormir.
Cansada. E nem é de ti, pequeno.
Cansada do balanço das ondas. Do não cessar.

Estou cansada da imensidão da batalha.
Dos ‘ismos’ e ‘istas’ caçoando de nós.
Dos discursos inflamados sem ouvidos.
Dos dinossauros dos nossos tempos.

Estou cansada dos seguranças da feira pedindo para que o homem saia dali
– o homem, aquele, o negro, que toca seu pandeiro com uma caixa de papelão ao lado.
Estou cansada do meu cansaço
e dos meus silêncios que ainda perduram tempo demais.

Estou cansada dos olhos dos homens
mas cansada também das ilhas das mulheres.
Das cicatrizes desnecessárias
do que já deveria ser cura.

( Cansada do frio que não aquece em abraço )

Estou cansada, filho, dos temores da minha geração
e mais cansada ainda
dos temores que implantam na tua.

E eu, agora, deito ao teu lado,
mão com mão
e toda noite é refúgio para cansaço.
Mas sei, filho,
– sei –
que amanhã floresceremos em mais coragem.
E que na noite seremos mais uma vez
conchas
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mas reunidas em beira de mar que vai e vem e vai e vem e.

( Estou cansada
mas o desastre não é morada )

Estou atenta, sabe, filho…
e todas as esperanças também residem em mim.
Por essas mãos entrelaçadas
– filho –
a gente também constrói marés.

A gente também
constrói
marés.

E nosso fôlego
é nosso (a)mar.

Por Genifer Gerhardt

Porto Alegre/RS, 1º de julho de 2017.

Foto: Por Júlio Bernabé, olhar de esposo e Pai apaixonado. 

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O Olho do Viajante – Por Márcio Vassallo

Por Márcio Vassallo   
Aqui na estrada, me deu vontade de postar de novo uma crônica que escrevi para a Leituras Compartilhadas, uma das revistas mais deliciosas e importantes já publicadas no Brasil.

O OLHO DO VIAJANTE
Viajar é uma arte para quem tem olho.

Mas olho de viajante não pousa em cartão-postal, não fica na superfície.

Ele entra é na fundura das pessoas, dos lugares, das situações.
E se mexe feito um pensamento desembestado.

Aliás, desembestar ideia nas pessoas é coisa bem de viajante mesmo, que vê boniteza de tudo quanto é ângulo; nas paisagens escondidas, nos ruídos da mesmice, na lucidez do desatino.

O olho do viajante tem um assombro permanente.

Todo mar é sempre o primeiro para ele.

As coisas têm cheiro de susto e som de descoberta.

Cheiro de susto é um que pula na gente que nem silêncio esfregado na frase.

Som de descoberta é quando a gente pisa numa concha e fica com música no pé.

Então, mesmo quando a descoberta se cobre de novo e o susto passa, tem viajante que fica nas pessoas, tem pessoas que ficam no viajante, tem chegada que abre desejo, tem desejo que dá na partida, tem um monte de tudo alargado nas miudezas.

Mas, afinal, o que é miudeza para o viajante?

Ah, miudeza é o infinito apertado na lonjura. e infinito é uma miudeza esticada até não sei onde.

Viajante é quem empina o infinito dentro da gente.

Só que para empinar infinito nos outros, antes de tudo, o viajante tem que fazer isso dentro dele mesmo. Depois, aí sim ele pode botar as pessoas no ar. E botar as pessoas no ar é dar olho de viajante para elas.

Acho que um dos grandes desafios do professor é dar olho de viajante para os seus alunos.

Há alguns anos fui conhecer as Cataratas do Iguaçu. E tem uma cena que não saiu mais da minha cabeça. Uma professora tinha levado os seus alunos para estudar as cataratas. e ficou lá, o tempo todo, falando da quantidade de litros que caía por dia, do período de secas, de tudo o que podia ser encontrado nos livros ou pesquisado na internet.

Ela ficou lá enchendo as crianças de datas, nomes e números.

É claro que a intenção daquela moça era a melhor possível. Ela saiu da sala de aula, deu um passo importante para viajar com as crianças num monte de possibilidades. Mas ficar só falando de datas, nomes e números, num momento que poderia ser tão mágico, foi dar tudo para aquela turma, menos olho de viajante.

Ainda mais importante do que saber de onde vem e para onde vai toda aquela água é escutar o barulho que ela faz quando cai. Aí você pode fechar os olhos junto com o seu filho, junto com o seu aluno, e ficar escutando aquele barulho assustador de bonito.

Assim, de olhos fechados, vocês podem ver um bocado de coisas juntos. Vocês podem conversar sobre o que cada um imagina quando escuta aquela catarata despencar. Já imaginou? É assim que você vai botar encanto na criança. É assim que ela vai suspirar. E é assim que você vai suspirar junto com os seus alunos.

Se quiser, você pode esquecer o barulho e ficar na imagem. Você pode ler a imagem das cataratas, ou ler a imagem de uma praça, de um rosto, de um texto, de uma ilustração.

Ensinar a ler sons e imagens é dar olho de viajante para as pessoas.

Conheço uma professora que faz isso como ninguém. Ela usa a literatura para dar uma aula possuída de beleza.

Literatura infantil, para ela, é coisa séria, não é historinha, não é misturar dois quilos de diminutivos com um punhado de adjetivos e descobrir lições de moral no final, nem é pretexto para falar de gramática, para fazer prova ou para cobrar respostas certas, como se existissem respostas certas para a beleza.

Essa professora que eu conheço diz que a beleza é incerta.

É assim que ela dá febre de encantamento nos seus alunos.

Na realidade, ela sabe que os seus alunos não são seus, porque nenhuma cidade pertence ao viajante. e cada aluno é uma cidade diferente.

Ninguém conhece uma cidade só de ouvir, seja numa conversa entre amigos, ou na sala dos professores.

Para conhecer uma cidade, a gente tem que entrar nela com o olho desarmado, sem rótulos, sem pressa, sem expectativas exageradas. E tem que permitir que ela entre na gente, sem que perceba que está entrando.

Entrar numa cidade, entrar num livro, entrar numa pessoa, e permitir que tudo isso entre na gente, é bem coisa de viajante mesmo.

Mas viajar não é uma arte só para quem tem olho.

Afinal, olho a gente ganha na estrada. Não importa que essa estrada, hoje, seja a rua que você atravessa todos os dias, a página de um livro que salta na sua frente, ou o corredor da sua escola.

Tem gente que roda o mundo, mas não consegue sair do lugar.

Tem gente que não sai do lugar, mas consegue rodar o mundo.

A viagem depende muito mais da pessoa que da passagem.

Santa Ceia em Montmartre – Paris

As mochilas já não paravam nas costas, volta e meia, buscávamos um canto para encosta-las, entre as andanças das ruas de Montmartre , Paris.

Montmartre é um bairro boêmio de Paris, em 1860 o bairro tornou-se um ponto de encontro importante de artistas e intelectuais, famosos pela sua animada vida noturna. Ponto de encontro de figuras como  Degas, Cézanne, Monet, Van Gogh, Renoir e Toulouse-Lautrec frequentavam o lugar, contribuindo para criar um clima libertário.

Hoje o bairro ainda vibra e cheira arte, é só você fugir um pouco dos destinos turísticos e caros, como Moulin Rouge, e sair da rota do lucro das agências turísticas.

Se você deseja  buscar a alma dos lugares, assim como na Vida, é só fazer o que a maioria não faz.

Uma colina que ainda é animada por artistas, turistas e boêmios que sabem os locais específicos da verdadeira diversão, gente acolhedora como os franceses e que adoram partilhar e conversar com turistas, ainda não encontrei. Do garçom ao vendedor ambulante, você descobre rapidinho quais os lugares onde pulsa Vida.

Chegamos ao hostel antes do combinado e ficamos curtindo a recepção, que já cheirava arte. Apesar do cansaço, valeu a pena à espera por um quarto suíte com aquela ducha revigorante, nos preparando para mais andanças…

Sempre preferimos hostel, conhecemos pessoas do Mundo todo, a maioria abertas para partilhas e trocas de experiências. De uma linguagem corporal ou com ajuda do tradutor, as risadas, conversas e trocas sempre acontecem…

De pessoas sozinhas à famílias, a intervenção é certa, principalmente no horários das refeições.

Santas refeições!

Cozinhar em hostel é umas das experiências mais deliciosas de troca que vivenciamos em nossas viagens.

E é uma dessas experiências que vim partilhar aqui com vocês.

Eu e meu marido decidimos fazer àquele jantarzinho romântico, à três,  com um bom vinho, uma boa pasta, molho inusitado e aproveitando os queijos maravilhosos da França, em nossa primeira noite em Paris.

Sempre tivemos o hábito de ficar conversando, bebendo vinho enquanto preparamos a refeição da família.

Nesse dia, a cozinha do hostel estava vazia, fiquei em uma mesa de frente pra ele, dividindo atenção entre ele e o pequeno que interagia conosco na preparação da ceia.

Em certo momento, quando meu marido  já estava com os ingredientes preparados ao lado da pia, panela no fogo, degustando o vinho,  e pegando  o escorredor para pasta, ouvimos um barulho de sino,  um tipo de alarme…

Logo chegou o recepcionista  e foi entrando na cozinha.

Uma rapaz que devia ter seus 30 anos, barba grande, sorridente, atencioso e que ainda não tínhamos conversado. Pediu licença e falou algo que não entendemos…

Corporalmente ele foi empurrando um pouco os ingredientes longe da torneira, tirou o escorredor de perto da cuba com um pouco de pressa, como se estivesse atrasado e foi tomando espaço na frente da pia com seu corpo grande e musculoso.

Começou a lavar as mãos,  meu marido sacou o escorredor de lado, e ainda conversando comigo e um pouco de olho no rapaz, esperava-o  terminar. Quando de repente, olhamos em direção à pia, já não eram só as mãos que estavam sendo higienizadas.

Nos entreolhamos sem entender muito bem o que se passava, e continuamos olhando culturalmente perplexos nos pés do rapaz, que estavam sendo banhados dentro da pia da cozinha.

E antes que você expresse qualquer reação, meu primeiro pensamento foi, mas cadê o bendito banheiro da recepção?

Mas a única coisa que corporalmente conseguimos expressar, foram risadas sucintas e olhos de cumplicidade que brilhavam e desejavam chorar de rir pela situação, e claro, que as libertamos logo após o rapaz nos agradecer com um belo sorriso e correr para seu canto reservado da recepção.

Àquela altura, tamanha nossa fome e sensação de: “o que está acontecendo aqui?”, fingimos não  questionar as demais possibilidades de uso da pia, só tratamos de nos certificar de que tudo estava muito bem cozido.

E lá estava nossa deliciosa pasta, nossa garrafa de vinho que já estava pela metade, e as gargalhadas que não cessavam à cada lembrança.

E claro, como de costume, o bate papo sobre a diversidade cultural que nos encanta a cada lugar que visitamos e pessoas que partilhamos, que nos obrigam a saltar vez ou outra de nosso mundinho conhecido com parâmetros e paradigmas ultrapassados.

O Nosso jovem recepcionista, estava se preparando para a Salá, Salat ou Salah (em árabe), são as 05 orações públicas que cada muçulmano deve realizar diariamente, voltado para Meca. As orações devem ser feitas em momentos concretos do dia, que não correspondem as horas, mas as etapas do sol.

O ritual de purificação que o jovem fez na pia da cozinha, foi o wudu (ou wuzu) que consiste em lavar com água as mãos, as narinas, os braços até a altura do cotovelo, a face, a cabeça, as orelhas e ouvidos e os pés, de uma determinada maneira.

E sem percebermos, lá estávamos nós, participando do ritual e partilhando daquele momento único.

E olha, que pela nossa experiências com grupos, de diversidade cultural, social, ideológica, pensamentos, valores e crenças, em nossa arrogância, acreditávamos que nossos pré-conceitos eram poucos.

E o pré-conceito que mais foi testado naquele momento, foi nosso conceito de higiene e espaço para tal. Enquanto para outra cultura, água purifica tudo.

Diferente não? Sim, essa é umas das palavras que sempre usei em minha Vida: Diferente, pois quando uso parâmetros pobres como:  pior ou melhor, bom ou ruim, certo ou errado,  são conceitos que limitam meu Modelo de Mundo e me impedem de conhecer e entrar verdadeiramente em contato com o outro, dificulta a minha capacidade em desenvolver RESPEITO e compreensão ao que não faz parte da minha cultura.

Já disse Freud,

“Quando não somos capazes de entender alguma coisa, procuramos desvaloriza-las com críticas. Um meio ideal de facilitar nossa tarefa.”

E quando você está no encontro com o “Outro” você experimentará de tudo, menos facilidades, pois é justamente a partir da convivência com esse “Outro”, que você evolui.

Quando encontramos à diversidade mundial, mergulhamos numa seguinte compreensão sistêmica que usarei uma frase de Gandhi para tentar expressa-la:

Interdependência: ” Cada um de nós tem um corpo, mas temos uma só alma. Os raios de sol são múltiplos, mas provém da mesma fonte. Eu não posso separar-me de ninguém, mau ou bom.”

E isso é simplesmente Lindo!

O  valor dessas experiências está na capacidade de abrir-se para compreensão, ampliar a mente, claro que muitas vezes também respeitando e protegendo nosso modo cultural de vivenciar o Mundo, e nessa troca, ambos saímos transformados.

Precisamos ter cuidado ao pisar no território do outro e assim aprendemos a só permitir a entrada em nosso Mundo, dos que respeitam nosso modo de ser.

Bem, e quanto à Montmartre…

Desde àquela cafeteria pequenina e acolhedora, com aquele cappuccino cremoso e desenhado pelo cacau, um croissant levíssimo e macio servido pela senhorinha de sorriso acolhedor, a cafeteria estilo década de 70, com poltronas cheias de pelos de gato e o garçom mais atencioso e fã do Ronaldo, ao  café des 02 Moulins (Amélie Poulain que tenho um post à parte), Montmartre, realmente tem uma gastronomia inusitada, para Alma. 

E essa foi apenas a nossa primeira ceia do primeiro dia,

Servidos?

Por Gizele Cordeiro

Uma alma de mergulhos incansáveis com o Outro.